Da mesada para o mercado!
Da mesada para o mercado
Por Daniele Camba De São Paulo
Valor Econômico
Daniel (nome fictício) está preocupado em como fechar o mês com o seu orçamento. Metade da renda está comprometida com dívidas de longo prazo e a outra metade precisa ser suficiente para pagar as contas do dia-a-dia e ainda sobrar um pouco para fazer um investimento. A situação de Daniel seria comum se ele não tivesse apenas 11 anos. Assim como ele, um número cada vez maior de crianças desperta para a necessidade de aprender como lidar com o dinheiro e a importância de poupar. Alguns bancos perceberam esse interesse e oferecem palestras de educação financeira nas escolas, apostando nos futuros clientes. Mas, é preciso tomar alguns cuidados na hora de falar sobre dinheiro para não criar pessoas com hábitos financeiros equivocados.
Daniel recebe, ou melhor, deveria receber R$ 100 de mesada por semana. No entanto, desde o ano passado e até o fim de 2006, ele receberá a metade, pois os outros R$ 50 ficam com sua mãe, como forma de pagamento de um vídeo game. "Ainda tenho mais um ano para pagar minha mãe", diz Daniel, com um tom de tristeza.
Não é apenas ele que já cresce sentindo o gosto amargo de estar endividado. A situação de Pedro (nome fictício), de 13 anos, é pior. Ele não ganha os R$ 50 semanais de mesada há dois anos, quitando a impressora e o mouse que o pai comprou para o seu computador. "Meu pai diz que preciso dar valor para o dinheiro e, desde pequeno, perceber o peso para se ter as coisas", diz o menino. Não são apenas as dívidas que Daniel e Pedro têm em comum. Eles gastam com carrinhos, DVDs ou bonés qualquer dinheiro que aparece nas mãos. Nenhum dos dois guarda sequer R$ 1, com algum objetivo futuro mais ambicioso, um skate, um tênis ou até uma viagem, por exemplo.
Para cada idade existe uma forma certa de ensinar educação financeira, diz a educadora e especialista no assunto Cássia D'Aquino. Ela destaca a importância de as pessoas aprenderem desde pequenas as vantagens de poupar num banco e não deixar o dinheiro em casa, debaixo do colchão ou no porquinho, sem render nada. Cássia afirma ainda que a maioria dos pais não fala sobre finanças pessoais com seus filhos e quem o faz comete erros importantes por pura falta de conhecimento.
Apesar de ter a melhor das intenções, os pais de Daniel e Pedro já começaram errando, diz a educadora. A começar pelos valores das mesadas. "É um absurdo uma criança de 11 anos ganhar R$ 100 de mesada por semana, esse valor é muito maior que a capacidade que a criança tem de administrar e ela acaba se perdendo", diz Cássia. Até os dez anos, a medida ideal, segundo ela, é dar semanalmente R$ 1 para cada ano de idade da criança, ou seja, R$ 10 para um filho de 10 anos. Entre os 11 e 13 anos, essa quantia pode dobrar. Já entre os 14 e 15 anos, triplicar. E entre os 16 e 18 anos, quadruplicar. Assim como começa, a mesada também tem hora para acabar, no máximo aos 18 anos. "A partir daí é paparico demais e pode acomodar o filho a não procurar um emprego nunca", diz Cássia.
A mesada, segundo ela, é um excelente instrumento para as crianças aprenderem a lidar com dinheiro e saberem diferenciar entre precisar ou apenas desejar comprar um bem. Só que a mesada precisa ser usada da forma correta, coisa que os pais de Daniel e Pedro não estão fazendo. Um dos pecados que eles cometem é atrelar a mesada ao pagamento de um bem muito mais caro. "As crianças crescem já conhecendo o peso de estar endividadas", diz Cássia. O correto seria os dois meninos ganharem esses bens ou aprenderem a poupar para compra-los à vista, o que seria muito mais útil, já que aprenderiam a importância de economizar. Outro equívoco que os pais cometem com freqüência é relacionar a mesada ao bom comportamento e às boas notas na escola.
Daniel e Pedro estudam numa escola de alto padrão em Alphaville e assistiram atentamente a uma palestra sobre educação financeira que o banco ABN Amro Real ofereceu aos alunos entre 10 e 13 anos. Com um tom pausado e de forma didática, o superintendente de investimentos do banco Eduardo Jurcevic explicou os principais conceitos do mercado financeiro. "O banco pega dinheiro de quem tem e empresta para quem precisa", explica Jurcevic. "A diferença de juntar dinheiro no banco e em casa é que o banco te devolve um dinheiro a mais, os juros", diz ele.
Com exemplos fáceis, o executivo também mostra que, de grão em grão e com disciplina, é possível poupar muito. "Se você guardar R$ 1 daquela bala por dia, em um ano terá R$ 370, depois de cinco anos terá R$ 2.090 e daqui 30 anos terá R$ 29 mil", diz Jurcevic. "Nossa, vou deixar de chupar bala hoje", diz Daniel, surpreso com o milagre que uma simples balinha pode fazer no orçamento de alguém.
As reações à palestra são as mais diversas possíveis, mas revelam crianças muito mais informadas do que no passado. "E se o banco falir, como o Banco Santos, eu perco o meu dinheiro que está lá?", pergunta uma aluna. "Para ser sócio de uma empresa, comprando ações, preciso ser empregado dela?", indaga outro aluno.
Foi a partir de um pedido de uma escola de Belo Horizonte, há um ano, que o Banco Real começou a fazer palestras para crianças. Este ano visitaram 12 escolas e há planos de expandir esse número para 2006. Segundo Jurcevic, muito mais do que divulgar o nome do banco, essa iniciativa serve para criar adultos mais conscientes financeiramente. Outros bancos caminham na mesma direção. Na Caixa Econômica Federal, por exemplo, 400 crianças entre 7 e 14 anos se tornarão clientes da caderneta de poupança Força X, como prêmio de terem concluído um curso sobre empreendedorismo.




2 Comments:
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marcelo, em primeiro lugar parabéns pelo site e pelo blog, muito bons artigos, sucesso.
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