O mito do R$ 1 real por dia em finanças pessoais

12/11/2009 por AmigoRico.org

Desde o controle da inflação, conseqüência da bem sucedida implantação do Plano Real há exatos quinze anos, passou a ser possível prever, com grau de precisão relativamente alto, quanto valeria nosso dinheiro após dias, semanas, meses e, até mesmo, anos. Se até meados de 1994 a ordem era “consuma antes da próxima remarcação de preços”, a inflação sob controle trouxe um novo paradigma.

Nesse sentido, ao invés de decidirem se, ao receber o salário, iriam, por exemplo, ao supermercado logo cedo ou depois do expediente, os consumidores não precisaram mais se preocupar em chegar para as compras antes da remarcação de preços. Porém, será que tomar decisões ficou mais simples com o controle da inflação?

Em princípio, tudo indicava que sim, afinal, poder escolher em qual dia efetuar as compras no supermercado passou a dar aos consumidores maior liberdade. Essa liberdade foi também traduzida pela possibilidade de escolha entre diversos serviços, principalmente financeiros, que passaram a estar à disposição dos consumidores de forma muito mais ampla. Dentre esses serviços, vale citar os maiores prazos para financiamentos imobiliários, a possibilidade de contrair dívidas com parcelas fixas e de investir em instrumentos financeiros que não visassem somente à proteção da inflação em determinado período.

Porém, nem tudo se mostrou tão simples nessa nova realidade. Com a possibilidade de ter acesso a crédito de forma mais simples, alguns consumidores se endividaram em excesso, algo ainda presente nos dias atuais. Na parte de investimentos, tentou-se vender a idéia de se tornar milionário com pouco (ou praticamente nenhum) esforço – para isso, “bastaria” economizar R$ 1 por dia.

Sacando as calculadoras financeiras dos bolsos, muitos tentaram (e ainda tentam) vender essa idéia, chegando até a demonstrar, em alguns casos, que não é milionário somente aquele que não quer – afinal, quem não consegue economizar R$ 1 por dia?

Aplicando-se R$ 10 a cada dez dias (visto que praticamente não existem produtos com aplicações iniciais e adicionais de R$ 1) e considerando-se juros de 6,5% ao ano (próximo ao da caderneta de poupança), teremos mais um felizardo milionário… após 82 anos! E, terceiro, sem considerar a inflação: R$ 1 milhão daqui a 82 anos certamente equivalerá muito menos que a mesma quantia nos dias atuais. Assim, economizar R$ 1 por dia, apesar de parecer algo simples, não é tão viável para objetivos que envolvam quantias muito expressivas.

Para quem busca adquirir o hábito de poupar, sem dúvida se trata de um ótimo começo. Porém, conforme os objetivos passam a envolver quantias maiores, é preciso que haja uma motivação bem clara – o que eu ganharia abrindo mão de algo hoje para ter mais amanhã? E quão distante é esse “amanhã” para valer a pena agüentar ficar sem hoje?

Tendo adquirido o hábito de poupar, passa a ser recomendável traçar alguns objetivos que estejam intimamente relacionados com nossos desejos. Não podemos nos esquecer de que temos que levar em consideração a questão da restrição orçamentária, ou seja, por mais desejos que tenhamos, alguns infelizmente ficarão à margem, pois não haverá dinheiro para viabilizar todos.

Muito importante também é lembrar que temos necessidades básicas a serem priorizadas, tais como alimentação, vestuário, moradia e saúde, sem falar na importância de guardar para a aposentadoria. Com essas informações em mãos, que nada mais são do que a base para um planejamento financeiro pessoal bem elaborado, aí sim é viável pensar em investimentos, não somente nos produtos em que aplicar, mas também nas quantias.

Dessa forma, talvez seja equivocado afirmar que as decisões se tornaram mais simples após o controle da inflação. Com a maior facilidade de acesso ao crédito e o crescimento do setor de serviços observado desde então, o consumidor passou a ter muitos bons motivos para gastar seu dinheiro. Porém, é importante tomar consciência da maior complexidade envolvida nesse processo decisório, principalmente em função das conseqüências desagradáveis que o consumo e o endividamento em excesso podem trazer.

Para investimentos, o processo decisório também se tornou mais complexo, embora alguns tentem reduzi-los a pensamentos simplistas. Devemos então extrair desse mito de economizar R$ 1 por dia que o importante é cultivarmos, sempre que possível, o hábito de poupar, mas não sem antes definirmos um bom motivo para recusarmos consumir hoje, principalmente quando os objetivos passam a envolver quantias maiores.

Caio Fragata Torralvo, CFP®, é consultor financeiro pessoal, professor da FIA, um dos autores do livro Aprenda a administrar o próprio dinheiro e faz da parte da equipe Médico das Finanças.

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